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Artigo:
CONSIDERAÇÕES SOBRE A TERAPIA DO CRISTÃO Karin
Wondracek
"Eu vim te
procurar porque tu és cristã, não é?"
Depois de ouvir
esta pergunta repetidas vezes, resolvi me interrogar sobre o seu conteúdo. Sendo
normalmente proferida por um cristão que vem buscar auxílio, penso que traz
vários significados.
"EU vim te TE
procurar porque TU ÉS" - a procura a mim vem acompanhada de uma definição da
minha pessoa - neste momento, sou enquadrada, emoldurada e se espera que eu me
comporte dentro disto. Até aí, nenhuma novidade, porque todas as pessoas que
procuram terapia têm uma expectativa, fazem alguma imagem do que esperam. Só que
me parece que neste caso há algo especial - qual é o significado de querer uma
terapeuta cristã, para aquela pessoa em particular? Para descobri-lo acolho sua
pergunta, mas crio um espaço de não-resposta para que ela o preencha com suas
expectativas e temores. Deixo que me diga como imagina que seja a minha fé, e,
por extensão, posso deduzir como a tem estruturado na sua vida.
Também tem me
dito "porque tu és cristã entendes o que eu falo, não preciso explicar". Tento
escutar isto de duas formas: por um lado , como uma expectativa de que eu
compreenda a dimensão do Sagrado, já que tenho esta experiência: que sejamos
dois companheiros na sua busca. E esta dimensão muitas vezes não consegue ser
explicada, "jamais penetrou em coração humano". Por outro lado, também escuto
isso como a serviço da parte neurótica da fé, a serviço da resistência, e por
isto a necessidade de "não precisar explicar nada".
Freud, num de
seus textos, utiliza a ilustração de que se determinarmos, numa cidade sitiada,
que a igreja seja declarada "zona de refúgio", todos que não quiserem ser
capturados se esconderão ali. Baseado nisso, me pergunto sempre o que será que
esta pessoa está refugiando no interior da sua maneira de crer e quer que eu me
comprometa a não tirar.
Então faço a
seguinte colocação: que o fato de eu ser cristã não implica que não vamos tratar
destas questões, que na terapia tudo vai ser examinado, porque tudo que diz
respeito à sua vida é importante. Com isso, não deixo que me amarre as mãos, e
me coloco do seu lado que quer sarar, justamente o lado que também está se
sentindo impedido de viver a dimensão sagrada - a igreja está tão cheia de
refugiados que acabam perturbando a sua finalidade original. E, por isso, tenho
sentido que esta colocação muitas vezes produz alívio, porque há um sofrimento
psíquico muito grande por sustentar estes impulsos "refugiados" e mantê-los
inativos. Por vezes, isso é até verbalizado com um "que bom, então posso te
contar..."
E assim como os
demais aspectos da sua vida, a questão da fé vai aos poucos de desvelando.
Fazendo ligação sobre sua imagem de Deus com a imagem das pessoas, especialmente
as revestidas de autoridade, o paciente pouco a pouco consegue desvestir Deus
das suas concepções infantis e se abrir para conhecê-lo de forma mais real. E o
fundamental neste processo é entender o papel da sua vivência de fé na
organização do seu psiquismo.
Três exemplos:
Ana não suportava que eu questionasse qualquer aspecto da sua vida religiosa. A
sessão se convertia numa defesa exaltada, teorização, com citação de textos
bíblicos, como se fosse uma pregação. Católica, chamava atenção a forma como
falava da Virgem Maria - uma devoção, quase fascinação que não combinava com sua
formação intelectual. Ligando com o motivo de procura do tratamento - idéias de
atração homossexual quando em situação de angústia, pode-se pensar que Ana
buscava desesperadamente na Virgem uma imagem integrada de mulher, como que um
espelho para não desintegrar.
Outro exemplo:
Joana conta que na adolescência repentinamente passou a freqüentar a igreja, e
dentre as várias, optou por uma que determinava uma série de proibições,
construindo um ritual que definia os modos de aproximação com o sexo
oposto.
Roberto, o filho
não desejado de um casal que o fez viver várias experiências de solidão
traumática na infância, conta que aos 5 anos descobriu, por um vizinho, a Escola
Dominical. Passou a aguardar ansiosamente cada Domingo. A professora, os amigos
e a idéia de Deus foram se construindo como um lugar onde era amado.
Quero ressaltar
as diferenças que percebo nesses três exemplos.
Para Ana, a fé
está como que sustentando seu psiquismo frágil, ameaçado de desestruturação
psicótica. Como estratégia, é necessário primeiro consolidar sua identidade,
para que a fé possa adquirir maior maturidade. Sua postura contra rever sua fé
eu não chamaria de resistência; entendo mais como um movimento para impedir a
derrubada de seu psiquismo frágil.
Para Joana, por
outro lado, a fé parece ter servido como refúgio temporário da sexualidade,
justamente na época em que esta se exacerbava. Precisou de limites claros onde
pudesse sentir seus impulsos sendo contidos e pouco a pouco organizados. À
medida em que a terapia lhe deu mais recursos internos de controle e expressão,
não teve mais que usar sua fé para reprimir a sexualidade. Abandonou o grupo e
passou a freqüentar outro mais aberto, que a ajudou a encontrar uma forma mais
livre de expressão do Sagrado.
Para Roberto, a
vivência religiosa entrou como fator estruturante da sua personalidade em
desenvolvimento. Pode-se dizer que a igreja, a professora e Deus exerceram a
função materna e paterna que faltava para consolidar o seu psiquismo.
Pode-se concluir
destes exemplos que o modo de crer de cada um tomou a forma de estruturação de
sua personalidade. Segundo Norbert Scholl "a fé é uma fé pessoal. Quando a
personalidade adoece, também a sua fé pessoal, integrante da sua personalidade
pode ficar vulnerável ã doença."(1980, p.9 - tradução livre).
Entretanto, nem
sempre este caminho é fácil. A idéia de revisar a dimensão religiosa ameaça,
pela perspectiva de "perder a fé", como se diz nas igrejas. O filme "Agnes de
Deus", de Norman Jewison, retrata muito bem este temor: mostra também que ao
lidarmos com isso, como terapeutas, somos confrontados com nossos conflitos,
nossos pontos cegos. Quanta responsabilidade em ter nossa crença revisada para
que não nos impeça de exercer nossa função. Não podemos converter nosso
consultório num púlpito das nossas convicções e muito menos das nossas
resistências.
Neste ponto,
muitos se perguntarão: "mas o que sobra da fé, uma vez havido o processo
terapêutico? Para Freud, nada. O homem estaria em condições de lidar com seu
desamparo sem precisar destas ilusões (1927). Para isto, contaria com a ciência
e seus avanços.
Voltando ao seu
exemplo da igreja, e discordando das suas conclusões, penso que se devolvermos a
seu lugar todos que se refugiaram na igreja, poderemos celebrar a verdadeira
adoração. Paul Tournier já disse que "por esta lealdade para consigo mesmo que
nos dá a psicanálise se purifica cada vez mais a vida espiritual"(1969,
p.46).
Creio que tratar
a fé é limpar o nome de Deus dos maus usos, dos "usos em vão", assim deixar
espaço para que Ele se revele a cada um. Para isso, é necessário desfazer-se de
uma outra ilusão, a de que o homem e sua ciência poderiam a tudo entender e
dominar. Será que "assumir a castração" - expressão psicanalítica usada para
"ter alcançado a maturidade" - não será justamente este ficar de mãos vazias,
reconhecendo a sua finitude e incapacidade de tudo explicar? E do outro lado, é
também assumir que a nossa fé neurótica não consegue controlar a Deus. Este é o
momento crucial de crise, muitas vezes confundido com perder a fé. É o momento
em que a nossa religiosidade resultante dos nossos arranjos frente aos
conflitos, cai por terra e ficamos nus, sem nada nosso para nos tapar perante a
realidade de Deus.
Bellet, em seu
artigo "conseqüência da crise analitica na experiência religiosa" comenta:
"Então também é de se compreender esta fase da noite, aquela fase onde "nada
mais existe", na qual "nada mais poderá ser dito": ela é um tempo de
aprendizagem, a dura aprendizagem da verdadeira relação. Quando não se tem mais
nada na mão, quando se sente a si mesmo despojado do amor próprio até sua
renúncia (pois ambos podem ser valores preciosos), então tudo isto nos é
presenteado, sem culpa, sem merecimento, entretanto jamais para nos humilhar,
mas sim para nos elevar à nossa verdadeira forma (Gestalt). O homem livre é
aquele que finalmente ser ergue pelas próprias forças, quando - paradoxalmente -
aceita que ele não é seu próprio autor, e não consegue se suprir sozinho...
Assim se é reconduzido à essência da própria existência - exatamente ali, onde o
evangelho tem a chance de ser ouvido - e não às construções próprias que
erigimos ao nosso redor."(apud Scholl,p171).
Karin
Wondracek
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
1. FREUD,
Sigmund
2. SCHOLL,
Norbert. Kleine Psychoanalyse christlicher Glaubenspraxis. Munchen: Kosel,
1980.
3. TOURNIER,
Paul. Tecnica psicanalitica y fé religiosa. Buenos Aires, Aurora,
1969.
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psicanalista em Porto Alegre, é vice-presidente do CPPC para a Região Sul.
E-mail: karinw@zaz.com.br
FONTE:CPPC |